Um balanço juntado aos autos afirma uma posição patrimonial. Afirmar não é provar. A questão técnica é se cada saldo relevante encontra respaldo na escrituração e, desta, na documentação de suporte — e é frequente que não encontre.

A análise pericial percorre esse caminho no sentido inverso ao da elaboração: parte do saldo apresentado, desce até o razão, e do razão até o documento. Os pontos em que o percurso se interrompe são os achados do trabalho, e costumam concentrar-se em poucas contas.

Como o cálculo é feito

Teste de consistência entre demonstrações

Verificação da amarração entre balanço, DRE, mutações do patrimônio líquido e fluxo de caixa. Demonstrações que não fecham entre si indicam ajuste não registrado.

Análise horizontal e vertical

Comparação entre exercícios e da composição interna de cada grupo, para localizar variações que não se explicam pela atividade.

Rastreamento dos saldos relevantes

As contas de maior materialidade são reconduzidas ao razão e à documentação de suporte, saldo a saldo.

Verificação de reconhecimento e competência

Confronto entre a data do fato e a data do registro, para identificar receitas ou despesas deslocadas entre exercícios.

Análise de provisões e ajustes

Verificação da existência, do critério e do lastro das provisões, incluindo as que deveriam existir e não foram constituídas.

Quantificação das distorções

Cada divergência é medida em valor e o seu efeito sobre o resultado e sobre o patrimônio líquido é demonstrado.

Onde este cálculo costuma errar

São os pontos que mais geram impugnação — e os que conferimos primeiro quando a planilha vem pronta da parte contrária.

Demonstração aceita como prova sem rastreamento

O documento formalmente correto pode não ter lastro. A conferência precisa descer até o documento de origem nas contas relevantes.

Análise limitada a um único exercício

Distorções aparecem na comparação entre períodos. Um exercício isolado esconde deslocamentos de competência.

Amarração entre demonstrações não testada

É a verificação mais rápida e a que mais revela ajustes não registrados. Costuma ser pulada.

Provisões ausentes não sinalizadas

A ausência de provisão devida distorce o resultado tanto quanto uma provisão excessiva, e é menos visível.

Documentos que sustentam o trabalho

A falta de qualquer um deles não impede o trabalho: fica registrada no laudo, com a indicação do que foi usado em substituição e do que, por consequência, não pode ser afirmado.

O que você recebe

Perguntas frequentes

Um balanço com parecer de contador pode conter distorções?+

Pode. O parecer atesta a elaboração conforme a escrituração; ele não garante que a escrituração reflita a realidade documental. A perícia verifica justamente essa segunda camada, que é onde as divergências relevantes costumam estar.

Quantos exercícios devem ser analisados?+

No mínimo três, quando disponíveis. Deslocamentos de competência e ajustes não registrados só aparecem na comparação entre períodos; um exercício isolado permite verificar consistência interna, mas não movimento.

Vocês analisam demonstrações da parte contrária?+

Sim, e é um trabalho frequente. Quando não há acesso à escrituração completa, o trabalho se concentra nos testes de consistência e nas análises comparativas, que já permitem identificar pontos que exigem exibição de documentos.