Divergência de planilha quase nunca é erro de soma
Quando duas planilhas do mesmo processo chegam a valores muito distantes, a causa raramente é aritmética. É critério: qual índice foi aplicado, a partir de que data, sobre qual base e com que regime de juros.
Por isso a conferência não começa recalculando tudo. Começa comparando premissas. Quatro delas explicam a maior parte das diferenças.
1. O índice de correção é o que a decisão determinou?
O primeiro passo é ler a parte dispositiva da sentença e anotar exatamente o índice fixado. Depois, verificar se a planilha aplicou esse índice — e apenas ele — em todo o período.
Um cuidado adicional: períodos longos frequentemente atravessam mudanças de critério determinadas por decisão superior. Uma planilha que aplica um único índice a um período de quinze anos costuma estar ignorando alguma dessas transições.
2. O termo inicial está certo — para cada rubrica?
Correção e juros nem sempre começam na mesma data, e cada rubrica pode ter termo próprio. Deslocar o marco inicial em poucos meses muda o resultado de forma perceptível; deslocar em anos muda de forma decisiva.
- Correção monetária — do evento, do ajuizamento ou do arbitramento?
- Juros — da citação, do evento danoso ou do trânsito em julgado?
- Cada parcela vencida tem termo próprio ou todas partem da mesma data?
Se a planilha não deixa isso explícito, o primeiro pedido técnico é justamente que ela deixe: sem termo inicial declarado, o número não é conferível.
3. Os juros são simples ou compostos, e sobre o quê?
Além do regime, é preciso verificar a base sobre a qual os juros incidem: sobre o valor original ou sobre o valor já corrigido. A diferença entre as duas escolhas cresce quanto mais longo o período.
Verifique também se houve capitalização não autorizada pela decisão — juros incidindo sobre juros já acumulados, quando o título determinava juros simples.
4. A base de cálculo corresponde ao que foi deferido?
Este é o ponto em que planilhas mais frequentemente extrapolam o título. Vale conferir, item por item, se cada rubrica da planilha tem correspondência na parte dispositiva, e se os valores partem dos documentos ou de estimativa.
Uma planilha que inclui rubrica não deferida não é apenas maior: ela compromete a credibilidade das demais rubricas, inclusive as corretas.
Depois das premissas, a aritmética
Confirmados os quatro pontos acima, a conferência numérica é objetiva. Três testes resolvem a maior parte:
- Teste de continuidade — o saldo final de um período é o saldo inicial do período seguinte? Quebras aqui indicam linha perdida ou fórmula arrastada errado.
- Teste de amostra — escolha três competências ao acaso e recalcule à mão. Se as três batem, o método está consistente.
- Teste de ordem de grandeza — o total faz sentido diante do valor original e do prazo decorrido? Um valor que multiplicou por vinte em cinco anos pede explicação.
Quando a planilha vem só como PDF
É a situação mais comum, e a mais desconfortável: sem as fórmulas, não há como verificar como cada célula foi obtida. O caminho técnico é reconstruir a planilha de forma independente, a partir da decisão e dos documentos, e comparar os dois resultados linha a linha.
Quando os dois caminhos divergem, a comparação mostra exatamente em que competência eles se separaram — e isso normalmente identifica a premissa responsável.
O que uma impugnação técnica precisa conter
- O ponto exato da divergência, com a competência em que ela começa
- O critério que a planilha aplicou e o critério que a decisão determinou
- O valor apurado por cada um dos dois critérios
- A demonstração de como o valor correto foi obtido
Impugnação que apenas afirma que o valor está alto tende a ser rejeitada. Impugnação que demonstra onde e por que ele está alto é o que abre discussão.
Perguntas frequentes
Quanto tempo leva para conferir uma planilha?+
Depende do período abrangido e do número de rubricas. A conferência de premissas costuma ser rápida; a reconstrução completa depende do volume documental e é estimada após a análise inicial.
Vale a pena conferir mesmo concordando com o mérito?+
Vale. Concordar com o direito reconhecido não implica concordar com o valor apurado, e os dois são discutidos em momentos processuais distintos.
E se a planilha da outra parte estiver correta?+
Também é uma resposta útil: evita impugnação sem fundamento, que consome prazo e desgasta a credibilidade das alegações seguintes.
Este texto explica método, não substitui análise do caso concreto. Cada processo tem documentos, critérios e decisões próprios.
