Comece pela pergunta, não pelos arquivos
O erro mais comum no envio para análise técnica é começar pelo volume: mandar o processo inteiro e pedir uma opinião. O resultado é previsível — prazo longo, custo alto e um laudo que descreve muito e responde pouco.
Um trabalho técnico só é objetivo quando a pergunta é objetiva. Compare:
- Vago — "analise se há irregularidade neste contrato"
- Objetivo — "a taxa praticada corresponde à taxa do quadro-resumo, e quanto foi cobrado a maior?"
A segunda pergunta define o que examinar, qual documento é indispensável e como o resultado será apresentado. A primeira não define nada.
O que enviar, por tipo de análise
Contrato bancário ou financiamento
- Contrato, aditivos e quadro-resumo
- Demonstrativo de evolução da dívida emitido pela instituição
- Extratos do período integral, sem lacuna
- Comprovantes de todos os pagamentos
Liquidação de sentença
- Sentença e acórdãos, com a parte dispositiva legível
- Planilhas já juntadas por qualquer das partes
- Documentos que comprovem a base de cálculo de cada rubrica
Perícia contábil ou societária
- Contrato social e alterações
- Demonstrações contábeis do período
- Livros Diário e Razão
- Extratos bancários de todas as contas
Marketplace e conciliação
- Relatórios de vendas e de repasses exportados da plataforma
- Extratos da conta que recebe os repasses
- Notas fiscais de venda do período
- Tabela de tarifas vigente e comunicações da plataforma
Três cuidados que economizam semanas
1. Envie o período completo
Extrato com lacuna é o problema mais frequente e o mais custoso. No intervalo ausente, nada pode ser afirmado — e a conciliação, que depende de continuidade, simplesmente não fecha.
2. Prefira o formato eletrônico estruturado
Arquivos de escrituração digital, planilhas com fórmulas preservadas e relatórios exportados permitem cruzamento em volume. PDF exige extração prévia, e a extração precisa ser conferida antes de qualquer teste.
3. Diga o que você já sabe
Se o cliente afirma que pagou uma parcela que não aparece, informe. Se há suspeita de uma rubrica específica, diga qual. Isso não enviesa o trabalho: direciona o exame, e o laudo registra que aquele ponto foi verificado — inclusive quando a suspeita não se confirma.
O que não ajuda
- Petições e manifestações jurídicas, salvo quando contêm dado numérico relevante
- Fotografias de documento em vez de digitalização legível
- Arquivos sem identificação, nomeados pelo scanner
- Documento parcial, com páginas faltando no meio
O que esperar da análise inicial
Uma triagem técnica bem-feita responde três coisas antes de qualquer trabalho extenso: se há material suficiente, o que é possível demonstrar com ele e o que faltaria para demonstrar o resto.
Essa resposta é o que permite decidir com informação — inclusive decidir não prosseguir, quando o material disponível não sustenta a tese. Saber disso antes é mais valioso que descobrir na impugnação.
Sigilo e organização do envio
Documento de processo é material sensível. O envio deve ser feito por canal que registre o recebimento, com os arquivos organizados por natureza e ordenados por data, e com indicação de quais informações têm restrição de compartilhamento.
Perguntas frequentes
Preciso enviar o processo inteiro?+
Raramente. O que a análise usa são os documentos que sustentam números: contratos, extratos, notas, demonstrações e a decisão. Petições costumam ser dispensáveis, salvo quando trazem dado numérico relevante.
E se eu não souber qual é a pergunta certa?+
A própria triagem inicial ajuda a formulá-la. Descrever o problema em linguagem comum já é suficiente para começar: a tradução para pergunta técnica faz parte do trabalho.
Documento incompleto inviabiliza a análise?+
Normalmente não. Ele limita o que pode ser afirmado, e esse limite fica declarado no laudo, com a indicação do que foi usado em substituição.
Este texto explica método, não substitui análise do caso concreto. Cada processo tem documentos, critérios e decisões próprios.
